PASSADO, PRESENTE, FUTURO
Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam (véus)
Os meus quarenta rostos desiguais,
Tão rasgados de tempo e macaréus.
Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã do charco fugida que saltou,
E no salto que deu, como podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.
Falta ver (ou não falta) o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim
José Saramago, Os Poemas Possíveis
Às 12.45, hora de Espanha onde vivia, morreu hoje, aos 87 anos, o nosso escritor, e Prémio Nobel da Literatura, José Saramago.
![saramago2[1]](http://romeuj.files.wordpress.com/2010/05/saramago21.jpg?w=300&h=169)



Enquanto portuguesa, não posso deixar de prestar homenagem ao grande génio da literatura e da língua portuguesas que foi (e continuará a ser) Saramago. Poucos souberam, como ele, elevar e dignificar as nossas letras de modo tão sublime. Enquanto leitora, lamento, acima de tudo, o quanto ficou por dizer… A sua escrita acutilante, genuína, interventiva, espelho das suas convicções (afinal, ele mesmo dizia “Nos meus livros, existe pelo menos um homem: eu”) deve e merece ser admirada. Enquanto ser humano, fica o exemplo de um homem sempre fiel aos seus ideais. Um monumento ao inconformismo que viverá para sempre na sua obra e na memória de todos.
Por: Angela Pardelha em 24/06/2010
às 16:50
Só agora li o poema e o comentário da Ângela. Parabéns pela tua análise tão profunda.
Também admiro o José saramago e concordo inteiramente contigo
Lisete Seromenho
Por: Lisete Seromenho em 05/01/2011
às 20:23